Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

O oceano depois do plástico

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Oceano devolve à infância o plástico que a economia adulta não soube conter - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Recifes, manguezais e pescarias não se recuperam com mutirões isolados. A reparação começa em terra, interrompe o fluxo de resíduos e devolve função aos habitats costeiros

Entre 19 milhões e 23 milhões de toneladas de resíduos plásticos entraram nos sistemas aquáticos do planeta em 2016. O cálculo, publicado por Stephanie Borrelle e outros 21 pesquisadores na Science em 2020, equivale a 11% de todo o plástico descartado naquele ano. Mesmo que esse fluxo cessasse amanhã, o oceano ainda carregaria redes perdidas, embalagens soterradas, fibras suspensas e fragmentos incorporados aos sedimentos. O oceano depois do plástico, portanto, não é um lugar sem polímeros. É uma etapa de reparação longa, na qual reduzir a produção desnecessária, recolher o que pode ser retirado e restaurar habitats precisam ocorrer ao mesmo tempo.

A imagem mais difundida da poluição marinha é a garrafa na praia. Ela mostra apenas a fração visível. O plástico viaja por rios, galerias pluviais, esgotos, portos e embarcações; muda de forma sob sol, ondas e atrito; afunda, volta à superfície ou se prende a raízes e recifes. Cada destino pede uma resposta diferente. Barreiras em rios podem reter objetos flutuantes. Não alcançam partículas dispersas na coluna d’água. Mergulhadores podem remover uma rede presa a um costão. Não recompõem um coral esmagado. A coleta resolve uma parte do dano passado. O desenho de produtos, o saneamento, a gestão de resíduos e a fiscalização determinam quanto dano novo chegará.

Nos recifes, o plástico atua como objeto e como superfície biológica. Sacolas e linhas roçam os tecidos dos corais, fazem sombra e criam áreas de baixa circulação de água. Fragmentos também transportam comunidades de microrganismos. Em um levantamento de 159 recifes da região Ásia-Pacífico, Joleah Lamb e colegas encontraram sinais de doença em 4% dos corais sem contato com plástico e em 89% daqueles tocados por resíduos. Corais de formas ramificadas, que oferecem mais pontos de retenção, mostraram maior exposição. O estudo, publicado na Science em 2018, não autoriza atribuir ao plástico toda enfermidade observada. Ele registra uma associação forte e biologicamente plausível entre contato, lesão e doença.

Essa precisão muda a política pública. O aquecimento do mar e as ondas de calor seguem como a principal pressão sobre os recifes em escala planetária. Acidificação, pesca destrutiva, esgoto, sedimentos e plástico se somam em escala local. Retirar uma linha de pesca pode evitar novas fraturas; reduzir efluentes e sedimentos aumenta as condições para recuperação; cortar emissões limita o calor que provoca branqueamento. Nenhuma dessas medidas substitui as demais. Um projeto que cultiva corais enquanto o esgoto e os resíduos continuam chegando administra uma vitrine, não a causa.

Nos manguezais, a arquitetura que sustenta a vida também aprisiona o lixo. Raízes aéreas diminuem a velocidade da água, retêm sedimentos e oferecem abrigo a peixes, caranguejos e moluscos. O mesmo emaranhado segura sacolas, tecidos sintéticos, cordas, garrafas e embalagens trazidas pelas marés e pelos rios. Por isso, chamar o mangue de filtro natural é uma meia verdade perigosa. Ele intercepta resíduos, mas paga pelo serviço: o plástico recobre o solo, obstrui raízes respiratórias e permanece em um ambiente onde a decomposição é lenta.

Um experimento de campo conduzido por Cornelis van Bijsterveldt e colegas em Java, na Indonésia, testou a cobertura do solo por macroplásticos. Publicado na Science of the Total Environment em 2021, o trabalho mostrou que árvores adultas toleraram cobertura parcial durante o período observado, enquanto a cobertura total prejudicou seu funcionamento e elevou o risco de deterioração do bosque. A distinção evita uma narrativa simples. Manguezais conseguem suportar perturbações; isso não os transforma em infraestrutura gratuita para receber descarte urbano.

A perda de função do mangue atravessa a cadeia econômica. Juvenis de diversas espécies comerciais usam águas rasas e raízes como abrigo e área de alimentação. No Golfo da Califórnia, Octavio Aburto-Oropeza e colegas relacionaram a extensão das franjas de mangue às capturas de peixes e caranguejos em 13 regiões pesqueiras. O estudo, publicado na PNAS em 2008, encontrou uma relação positiva entre habitat e produção da pesca local. O número não deve ser transferido mecanicamente para o litoral brasileiro, mas demonstra algo mensurável: conservar manguezais também conserva capacidade pesqueira.

No Brasil, essa conexão envolve pescadores artesanais, marisqueiras, catadores de caranguejo e povos tradicionais que dependem das marés para renda e alimentação. Quando o plástico chega ao mangue, o custo não recai apenas sobre uma espécie ou uma paisagem. Ele aparece no tempo gasto para limpar redes, no acesso bloqueado aos bancos de mariscos, no risco para embarcações pequenas e na degradação dos locais de reprodução. Programas de restauração que contratam comunidades apenas para plantar mudas ignoram o conhecimento sobre canais, marés, espécies e usos que define se o plantio sobreviverá.

A pesca ocupa uma posição dupla nessa história. Ela sofre com a poluição e também gera parte dela. Redes, linhas, cabos, boias e armadilhas abandonados, perdidos ou descartados continuam capturando animais sem produzir alimento. Esse material se desloca, raspa fundos e corais e, com o tempo, se fragmenta. Tempestades, choques entre embarcações, conflitos de uso do espaço, desgaste e ausência de instalações de recebimento nos portos estão entre as causas. Reduzir tudo a “falta de consciência do pescador” produz culpa e pouca prevenção.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aprovou, em 2018, diretrizes voluntárias para marcação de petrechos de pesca. A identificação ajuda a rastrear perdas e organizar a devolução, mas funciona melhor com registro simples, comunicação sem punição automática, instalações portuárias, incentivos para entrega e operações de retirada guiadas por risco. Equipamentos recuperados também precisam de destino. Sem triagem e logística, uma rede retirada do mar apenas muda de depósito.

Há outra cautela. A remoção pode ferir aquilo que pretende proteger. Redes antigas tornam-se substrato para organismos; puxá-las sem avaliação pode quebrar colônias ou revolver sedimentos contaminados. Máquinas usadas em praias e estuários retiram matéria orgânica, sementes e pequenos animais junto com o lixo. A escolha entre remover, cortar, estabilizar ou monitorar depende do local, do tipo de material e do dano esperado. Limpeza responsável exige mapa, protocolo e acompanhamento, não apenas volume recolhido para fotografia.

É nesse limite que entram as Soluções Baseadas na Natureza. O padrão global da União Internacional para a Conservação da Natureza, publicado em 2020, exige que essas ações respondam a uma questão social definida, gerem ganhos para a biodiversidade, sejam viáveis e tenham governança inclusiva, além de administrar compensações ao longo do tempo. Restaurar a circulação de água de um manguezal, recompor vegetação de margem para conter solo e resíduos antes que alcancem os rios, recuperar recifes de ostras e proteger pradarias marinhas podem atender a esses critérios. Deixar o lixo se acumular entre raízes não atende.

A expressão também não deve encobrir obras convencionais com paisagismo decorativo. Uma barreira vegetal instalada sem conhecer a bacia pode concentrar plástico em uma comunidade rio abaixo. Um viveiro de corais pode fracassar se a qualidade da água permanecer ruim. O reflorestamento de mangue em planície inadequada pode substituir áreas de alimentação de aves e alterar a dinâmica de maré. Projetos sérios começam pelo diagnóstico físico e social, com metas verificáveis: área reconectada à maré, sobrevivência da vegetação, retorno de espécies, redução do fluxo de resíduos e renda paga a quem trabalha na manutenção.

As melhores combinações operam da bacia ao mar. Municípios ampliam coleta e saneamento; fabricantes eliminam itens dispensáveis e financiam a logística reversa; portos recebem petrechos usados; pescadores registram perdas e participam da retirada; equipes restauram margens, manguezais e recifes onde a pressão foi controlada. Dados sobre correntes e acúmulo orientam o trabalho. O resultado não se mede apenas em toneladas recolhidas, indicador que pode premiar locais onde mais lixo continua chegando. Mede-se também pela queda do fluxo, pela saúde do habitat e pela redução de novas perdas.

Essa arquitetura redistribui responsabilidades. Comunidades costeiras não podem funcionar como mão de obra voluntária para corrigir decisões tomadas longe da costa. Empresas que escolhem materiais, formatos e canais de venda controlam variáveis que pescadores e moradores não controlam. Governos controlam saneamento, fiscalização, contratos de limpeza e regras de mercado. A participação local deve ter poder de decisão, remuneração e acesso aos dados. Sem isso, “ação comunitária” vira transferência de custo.

O Brasil dispõe de instrumentos recentes para juntar essas peças. O Decreto nº 12.045, de junho de 2024, criou o ProManguezal e incluiu entre suas linhas de ação o controle da poluição nas bacias e no mar, a recuperação de áreas degradadas, o monitoramento e o fortalecimento dos modos de vida tradicionais. Em outubro de 2025, o Decreto nº 12.644 instituiu a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico para o período de 2025 a 2030. O texto adotou a abordagem “da fonte ao mar”, incorporou o ciclo de vida dos produtos e colocou não geração, redução e reúso antes da reciclagem, da retirada e da remediação.

Os decretos fornecem direção; orçamento, metas, fiscalização e transparência determinam a entrega. A própria estratégia brasileira organiza oito eixos, entre eles regulação, prevenção, retirada, ciência, monitoramento e financiamento. Essa ordem administrativa registra uma mudança de escala: o oceano não será reparado praia por praia enquanto cidades, indústrias e cadeias logísticas mantêm o mesmo fluxo. Desde 1º de outubro de 2025, a norma federal brasileira já estabelece que a política para o plástico deve seguir o resíduo desde a origem até o mar e priorizar, nesta sequência, não gerar, reduzir, reutilizar e reciclar.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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