Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026

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Plástico, sociedade e natureza 2026.

Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada

Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026

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Plástico volta à cadeia produtiva pelas mãos de mulheres negras que lideram a reciclagem, mas ainda recebem pouco do valor que geram - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR – KAMILA CAMILO*, COLUNISTA DO NEO MONDO

Na cidade que mais recicla, mulheres negras lideram cooperativas e sustentam uma cadeia que ainda distribui pouco do valor que produz

Quando falamos em economia circular, é comum imaginarmos novas tecnologias, embalagens redesenhadas, bioplásticos, logística reversa e investimentos em inovação. Tudo isso importa. Ainda falta uma pergunta: quem faz a circularidade acontecer?

Em São Paulo, basta olhar para o caminho de uma embalagem depois do descarte para encontrar parte da resposta. Antes de virar matéria-prima novamente, ela passa pelas mãos de trabalhadoras e trabalhadores que coletam, separam, prensam, organizam e comercializam aquilo que a cidade decidiu chamar de lixo. A reciclagem não começa na indústria. Ela começa na rua, nas cooperativas, nos galpões e no trabalho de quem historicamente ficou à margem do debate econômico.

Toda vez que um pote de plástico vira matéria-prima nova, alguém já passou as mãos nele antes da indústria. Na maior parte das vezes, essa mão é de mulher. Em São Paulo, a Federação Paulista das Cooperativas de Reciclagem (Fepacore) mais da metade da força de trabalho da reciclagem paulistana é feminina, e 62% dos catadores da capital são pretos ou pardos.

O Atlas Brasileiro da Reciclagem mostra que as mulheres ocupam 61% dos cargos de liderança. Não são apenas mulheres na coleta e triagem, mas também na negociação, administração e tomada de decisões. É nessas cooperativas, e não nos grandes centros de triagem automatizados, que o material plástico do dia a dia da cidade encontra destino. Redes como a Rede Catasampa, hoje presidida por uma mulher, Bruna Cavalcante, mostram algo que o debate sobre economia circular costuma ignorar: quando o material é comercializado pela própria cooperativa, o valor gerado fica dentro da rede de reciclagem, em vez de evaporar para intermediários.

Ainda assim, apenas 10% das catadoras e catadores da cidade estão formalmente organizados em cooperativas, segundo a Fepacore. Os outros 90% trabalham de forma autônoma, sem proteção previdenciária, sem seguro contra acidentes, sem poder de negociação sobre o preço do material que coletam. A cooperativa não é só uma forma de organização produtiva, é a diferença entre ter ou não ter direito a adoecer, a envelhecer, a parar de trabalhar sem cair no abismo.

Kamila Camilo - Foto: Divulgação

O Decreto 12.688/2025, que instituiu o sistema de logística reversa para embalagens plásticas, prevê expressamente a inclusão socioprodutiva de catadoras e catadores nessa cadeia. No papel, é um avanço. Na prática, o desafio será garantir que a inclusão não fique só na letra do decreto: que as indústrias que hoje dependem do trabalho de catação para cumprir suas metas de reciclagem paguem preço justo pelo material, apoiem a formalização em cooperativas e, sobretudo, reconheçam que essa cadeia é liderada, no chão da fábrica informal que é a rua, por mulheres negras.

As mulheres negras e periféricas estão historicamente concentradas nos trabalhos mais precarizados, nos cuidados não remunerados e em atividades essenciais que a economia costuma invisibilizar. A reciclagem reproduz parte dessa lógica: um trabalho fundamental para a cidade, para a indústria e para o meio ambiente, mas ainda remunerado de maneira desproporcional ao valor que gera.

Reinventar a relação entre plástico, sociedade e natureza não é só uma questão de trocar matéria-prima fóssil por bioplástico, ou de discutir tratados em Genebra. É também, e talvez principalmente, uma questão de para quem sobra o trabalho sujo da limpeza que a sociedade de consumo gera, e quanto essa sociedade está disposta a pagar por ele. Em São Paulo, esse trabalho tem nome, tem cooperativa, tem liderança  e é, majoritariamente, feminino e negro. Ignorar essa camada da economia do plástico é ignorar a metade da história. E nenhuma transição será justa se continuar invisibilizando quem, todos os dias, já está fazendo a parte mais pesada dela.

Isso significa reconhecer catadoras e catadores como agentes econômicos, e não apenas como beneficiários de políticas sociais. Significa garantir que os mecanismos de logística reversa e responsabilidade pós-consumo não transfiram para as pessoas mais vulneráveis o custo de uma cadeia que movimenta bilhões. Significa remunerar o serviço ambiental prestado, ampliar o acesso das cooperativas a contratos e mercados e criar condições para que as mulheres que já lideram esse setor possam ocupar também os espaços de decisão sobre o futuro da reciclagem.

A economia circular só será verdadeiramente circular quando o valor não circular apenas entre materiais e empresas, mas também chegar às pessoas que tornam esse ciclo possível.

Talvez essa seja uma das maiores oportunidades de São Paulo: deixar de enxergar a reciclagem como o fim da vida de um produto e começar a enxergá-la como uma economia viva, feita de trabalho, conhecimento e liderança.O plástico pode até voltar à indústria. Mas, antes disso, precisamos fazer com que o reconhecimento também volte para quem sempre esteve no centro dessa história.

*Kamila Camilo é uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática. Colunista do portal Neo Mondo.

Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

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